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A viagem da criança em Chihiro
 
 
Muito se falou sobre "A Viagem de Chihiro". Tratam-no como clássico, como uma obra-prima. Esperei um ano por este filme. No Anima Mundi de 2002 ele foi a sensação, lotando salas e obrigando a organização a dobrar ou triplicar a quantidade de sessões para atender tamanha demanda.
 
Prometeram-no para o início do ano mas, pela desculpa de combinar com as férias escolares, "A Viagem de Chihiro" só foi lançado no meio de julho. Agora, pensando em retrospectiva, fico feliz. Nesses últimos seis meses, tive a oportunidade de entrar em contato com um livro que, ao que me parece, é referência obrigatória ao mundo da psiquiatria: "A psicanálise dos contos de fadas", de Bruno Bettelheim.
 
A obra abriu minha visão para a enormidade da badalada animação. Não é exagero. "A Viagem de Chihiro" nasceu para ser eterno. De acordo com Bettelheim, os contos de fadas tem a função primordial de aliviar pressões e encaminhar a criança às respostas para problemas naturais de seu crescimento. Em "João e Maria", por exemplo, aprendem a controlar a voracidade oral (não deviam ceder ao impulso de comer a casa de doces) e a adquirir independência das figuras parentais (os dois tiveram que se virar sozinhos com a bruxa).
 
Esses e outros temas passam por Chihiro. Diferente das últimas animações, excetuando "Shrek" e "Procurando Nemo" (porque ainda não o assisti), tratar de temas infantis não é sinônimo de pouca profundidade de foco, previsibilidade de roteiro ou dramas pré-modelados.
 
Hayao Miyazaki trabalha com muitos níveis de interpretação como poucas vezes foi feito em animação. As matérias sobre o filme caem numa comparação errônea: Chihiro não é Alice e a Casa de Banho não é o País das Maravilhas. Alice trata da lógica e suas distorções, já Chihiro está imersa em um clima onírico. Talvez o único ponto de união entre as duas é o visual mesmerizante do mundo que a envolve.
 
"A Viagem..." conta como uma criança medrosa e manhosa aprende a ultrapassar seus próprios limites, dando os primeiros passos no mundo dos adultos (e muita lição de moral neles, também!). Na casa de banho em que acidentalmente é 'aprisionada' após a transformação dos pais em porcos, a menina Chihiro arruma seu primeiro emprego e encontra seu primeiro amor.
 
Valores como persistência, perseverança, bondade, amor, intuição e força são essenciais para que a menina sobreviva no ambiente fantástico que se encontra. E a criança que se projeta em Chihiro cresce junto com a personagem. Os dois percebem que não irão a lugar algum se permanecerem sentados e chorando com o rosto entre os joelhos. Que por mais estranha que seja a pessoa, há sempre algo de bom e belo. Que a recompensa para se fazer o bem não é o dinheiro... que é preciso se sacrificar pelas outras pessoas... que mudanças são benéficas e crescer é doloroso, mas necessário... O desenho é perturbador e assustador, na mesma medida que é poético, sensível e construtivo.
 
A Revista Veja já cantou a bola, mas não errou, prestem atenção na singeleza e beleza da cena em que o trem corre por trilhos imerso em água. Belíssimo! Os personagens também são um espetáculo por si: cabeças saltitantes que exclamam "Oi!"; um pássaro com rosto de feiticeira; um bebê gigantesco; um velhinho com quatro braços flexíveis; uma bruxa enorme com uma verruga na testa e um exército de deuses em repouso!
 
Pretendo ainda assisti-lo uma vez mais para arriscar alguma interpretação, mas tenho consciência de que não captarei tudo o que ele tem a dizer. Para fruir 100% de a "Viagem de Chihiro" só tendo crescido sob a cultura nipônica, pois as auto-referências devem ser numerosas
 
Apenas o que eu vi me deixou bestificado...
 
A mídia não exagerou! E não seria clichê pensar que "A Viagem de Chihiro" é ótimo para crianças de 9 a 90 anos!