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As
heranças do cinema mudo em "A Festa de Margarette"
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| O gaúcho Renato Falcão, radicado nos Estados Unidos desde 1993, é um dos novos cineastas brasileiros que vem obtendo reconhecimento na atual fase do cinema nacional. Documentarista, diretor de fotografia em diversas produções norte-americanos e realizador dos curtas "Presságio" e "Save me", Falcão chamou a atenção da crítica especializada, em 2002, quando lançou em festivais seu primeiro longa-metragem, "A Festa de Margarette" , um projeto experimental com baixo orçamento de US$ 100 mil. |
| Com uma ótima sincronia entre imagens e trilha sonora, destaque para a rigorosa seleção de antigos chorinhos brasileiros, o filme pode ser considerado, pela opção estética fora dos padrões industriais, contra-corrente ao sistema de qualidade imposto pelo mercado. Filmado em 16mm, preto & branco e sem diálogos, motivos mais do que suficientes para afastar o grande público, acostumado com determinismos tecnológicos, "A Festa de Margarette", entretanto, reserva uma agradável surpresa. |
| Longe de ser uma produção acadêmica que vise exclusivamente espectadores interessados na linguagem cinematográfica, o filme, uma comédia, mescla aspectos considerados analíticos e modernos - como a montagem não-linear - com situações tragicômicas clássicas de entretenimento. |
| Em "A Festa de Margarette", Pedro é um inabalável sonhador que deseja realizar uma grande festa de aniversário para sua esposa. Mesmo passando por problemas financeiros, em decorrência do aviso de desemprego e da dificuldade em receber o fundo de garantia, ele imerge em suas próprias fantasias, tentando encontrar uma solução para que as comemorações efetivamente ocorram. |
| A este roteiro simples, da trajetória de um homem comum para agradar a companheira, o que realmente ganha relevo é a construção fílmica específica de Renato Falcão. Ao optar por elementos do cinema mudo, o diretor retoma toda uma tradição há tempos substituída pela fala e pela cor. |
| No decorrer do filme, o personagem principal, muito bem interpretado por Hique Gomes, assume um papel que se assemelha e presta homenagens aos grandes realizadores das primeiras décadas. Além da presença espiritual de Chaplin, seja na alegria constante de Pedro ou quando fica amigo de um menino, que faz lembrar "O Garoto", Falcão ainda retomou, logo na seqüência inicial, o ilusionismo de George Méliès e relembrou as tão conhecidas perseguições das gags criadas por Porter e seus contemporâneos. |
| Não bastasse este tributo, "A Festa de Margarette" ainda ganha relevância pelo modo como a estrutura silenciosa foi utilizada. Sem qualquer diálogo ou mesmo legendas explicativas, os significados da produção são todos, por essência, visuais. Utilizando o que Humberto Mauro denominava subjetivismo, Falcão expressa-se somente através de imagens. Assim, para demonstrar que o tempo passa, não são necessárias frases como "O tempo passa...", mas simplesmente que Margarette risque os dias do calendário. |
| Mesmo a fala sendo deixada de lado, a compreensão da história é completa. Ágil, de fácil assimilação, ajudado pelo tom cômico e com personagens psicologicamente bem delineados, tanto que não será surpresa a identificação com a maioria deles, o filme alcança um entendimento universal. |
| Em complemento a rememoração do passado, o longa-metragem é bem atual ao propor uma crítica, principalmente, às instituições sociais. Nem mesmo a ilusão de Pedro, um firme sustentáculo para sobreviver as intempéries de sua situação, está livre de um realismo latente que permeia toda a história. A polícia aparece como corrupta e violenta, o sistema bancário como oportunista e, em uma cena alucinante, a religião é vista como um show que oprime intensamente o indivíduo. |
| Porém, nem sempre a mistura entre comédia e crítica funciona. Há uma seqüência em que a narrativa é suspensa para que os espectadores sejam introduzidos, no subterrâneo, a um verdadeiro teatro de horrores. Neste momento, em quadros separados, vê-se nazistas, sadomasoquistas e acontece um extermínio de crianças. Nada diretamente chocante, mas que diminui a força das muitas cenas cômicas que ainda acontecem. |
| "A Festa de Margarette" é um experimento muito bem-vindo no momento em que o cinema nacional vive um amplo otimismo. Apesar de não se saber exatamente o que está sendo [retomado], como muitos críticos andam dizendo por aí, produções como a de Renato Falcão sempre serão valorizadas como uma maneira de avaliar a potencialidade de nossos meios artísticos e culturais. E quem sabe, com o nascimento de uma indústria com bases sólidas, não surjam mais investimentos para tentativas como esta... |
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