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Diferentes
contextualizações do conflito em adaptações cinematográficas de "Dois
Perdidos Numa Noite Suja"
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- Reinaldo Cardenuto Filho -
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| Autor de textos marcadamente relacionados ao universo marginal, Plínio
Marcos estreou no teatro em 26 de dezembro de 1966 com a primeira montagem
profissional de "Dois Perdidos Numa Noite Suja", peça inspirada no conto
"O Terror de Roma", de Alberto Moravia. |
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| No enredo, dois homens que dividem um desolado quarto de pensão vivem
um intenso conflito de valores, estruturando suas relações em torno de
um simples par de sapatos. Imigrante que se mantém atrelado aos laços
familiares, Tonho acredita que sua vida poderá mudar caso adquira um novo
calçado. Apesar dos estudos, informação que repete incansavelmente, mas
que não tem oportunidades de demonstrar, possui plena consciência de que
somente encontrará um bom emprego se conseguir causar uma impressão satisfatória.
Para o personagem, falta-lhe exatamente o mais essencial em um mundo regido
pelas aparências: o aspecto visual. Paco, por outro lado, não possui qualquer
vínculo familiar ou o desejo consciente de estar inserido no mecanismo
social. Aparentemente egoísta e mesquinho, demonstra uma clara apatia
frente ao mundo. Como nunca foi ajudado por ninguém, também não ajuda
o outro, sobrevivendo unicamente graças a seus esforços. |
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| Bastariam essas diferenças de personalidades para que ambos, enclausurados
em um quarto, tivessem uma experiência baseada na discórdia. Afinal, a
principal diversão de Paco é importunar continuamente Tonho, cuja revolta
contra a situação passa de gritos e tapas inofensivos a lamentos fervorosos
contra a existência. Plínio Marcos, entretanto, introduziu na já problemática
vivência dos personagens um elemento que intensifica o cotidiano caótico:
Paco possui um novo par de sapatos, maior desejo de Tonho. Enquanto o
último demonstra a provável importância do calçado, implorando que seu
companheiro o empreste por um dia; o primeiro somente utiliza o "pisante"
como acessório, descartando por completo qualquer possibilidade de empréstimo.
Instaura-se um jogo de poder que dura até o final da peça, quando eclode
uma violenta inversão que termina com o dramático assassinato de Paco. |
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| O texto de Plínio Marcos, ao esboçar criticamente a completa ausência
de união e empatia entre os representantes de uma classe marginalizada,
constatando friamente a improvável formação de uma "classe por si" que
possa fazer frente ao poder do Capital , chamou a atenção da crítica especializada.
A boa acolhida, no entanto, não renderia somente possíveis discussões
ou acepções sobre as questões sócio-culturais brasileiras, mas também,
o reconhecimento da peça como importante para delinear o mal-estar que
se fazia presente nas relações autoritárias entre indivíduos que, de certa
forma, sofriam dos mesmos males. Em plena época na qual muitos intelectuais
exaltavam os menos favorecidos, dotando-os de uma imagem caricatural em
que prevalecia "o ingênuo sujeito preocupado com o coletivo, cuja alienação
advém unicamente dos mecanismos intrínsecos à sociedade capitalista" ,
Plínio introduz um mal-estar nada passageiro que tende a piorar gradativamente,
pois assimila até mesmo os que tentam dele escapar. |
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| Esse reconhecimento rendeu, em 1971, a primeira versão cinematográfica
de "Dois Perdidos Numa Noite Suja". Dirigido por Braz Chediak, com Emiliano
Queiroz e Nelson Xavier no elenco, o filme conseguiu manter o mesmo clima
de decadência presente no texto original. |
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| Quase completamente filmado durante à noite (com exceção de algumas
cenas que não são, necessariamente, conflituosas); com a maioria das situações
apreensivas acontecendo dentro de um quarto apertado e mal iluminado,
cujos elementos cenográficos em destaque são todos precários ( como colchões
rasgados, colchas furadas e paredes em péssimo estado); e com uma excelente
interpretação dos atores principais, o que recoloca a dicotomia reinante
entre Tonho e Paco; Chediak preservou o espírito de "Dois Perdidos Numa
Noite Suja". |
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| Além disso, os elementos presentes no longa-metragem, mais do que tentar
uma aproximação fiel aos significados propostos por Plínio Marcos, são
estruturados a partir de uma opção técnica/estética claramente teatral.
Não é gratuita, portanto, a utilização de longos planos-sequências nos
interiores (representação do palco), de uma interpretação dramaticamente
exagerada, assim como a presença preponderante dos diálogos, e nunca das
imagens. |
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| Envolvidos por uma narrativa com desenvolvimento linear, este conjunto
de fatores está presente em quase todos os momentos do filme. Nas discussões
dos protagonistas, por exemplo, o nervosismo contínuo é reiterado por
um plano-seqüência cujo enquadramento coloca os protagonistas nos limites
horizontais da tela. Filmados em plano aberto, os dois parecem pólos de
uma balança na qual o peso tende ora para um lado e ora para outro. O
diálogo expressivo e áspero é quem comanda o desequilíbrio. Tal construção
fílmica fica evidente logo na primeira discussão entre Tonho e Paco, quando
ambos estão em suas camas, com os espaços da direita e da esquerda preenchidos
e do centro esvaziado. |
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| Pela complexidade e por ser parte essencial da narrativa, o tratamento
recíproco dos dois personagens merece uma discussão maior. Tonho e Paco
são pessoas solitárias. O primeiro, vindo do interior, mantém um estreito
laço com a família, preservando um retrato e enviando, quando pode, correspondências
com notícias. Já o segundo, nem tal ligação possui. Vindo de um orfanato
onde aprendeu a tocar flauta, não tem namorada nem amigos. "Perdidos na
noite", são completamente excluídos dos vínculos sociais existentes entre
os companheiros do mercado em que trabalham como carregadores. Tonho não
se importa. Ele toma sopa sozinho, transporta caixas calados e, quando
atormentado pelo "negão", tenta resolver a situação longe dos códigos
instituídos por aquela comunidade, ou seja, na conversação e não na violência.
Paco, por sua vez, se importa. Independente de gostar ou não do companheiro
de quarto, tenta desesperadamente ser aceito como parte do grupo dos carregadores.
É por tal razão que espalha infâmias sobre Tonho e o incita a matar quem
o blasfema, apostando que tal empreendimento possa lhe render um espaço.
O discurso, todavia, falha. A conseqüência é a continuidade da exclusão. |
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| Tal marginalismo e a necessidade de vínculos é, por conseguinte, o que
mais une os protagonistas. Tonho explicita sua indisposição em relacionar-se
com os trabalhadores, porém, quando Paco lhe nega o empréstimo do sapato,
fica claramente magoado e desapontando, imaginando que duas pessoas, como
em uma família, devem se ajudar. Desenvolve-se então uma dualidade repulsiva
de poderes. Enquanto o órfão mantém-se próximo do imigrante, humilhando-o
com a finalidade de descartá-lo assim que cumprir seu objetivo; o outro
se deixa humilhar, já que enxerga em Paco o único que pode preservar possíveis
laços simbólicos de parentesco. |
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| Falta para ambos a sensibilidade da aproximação. Eles não conseguem
perceber o quanto são complementares. Tonho parece refletir sobre isso,
parece acreditar na possibilidade de uma amizade, mas suas ações colocam
em dúvida tal idéia. Além de ser, muitas vezes, violento, quer o calçado
emprestado com o único desejo de ir embora, de abandonar exatamente quem
mais precisa. |
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| A ironia de Plínio Marcos aparece na seqüência final, quando há uma
inversão na dualidade de poderes. Paco, aquele que aparentemente era o
que menos respeitava o outro, demonstrando menor alteridade, começa a
aceitar a companhia de Tonho assim que este propõe um assalto. A ação,
agressiva e bem sucedida, desencadeia nele novos ideais: irá mostrar para
o mundo que é "maluco e perigoso". Junto de seu companheiro irá barbarizar
os namorados do parque, tornando-se um famoso bandido procurado. Neste
diálogo evidencia-se a primeira tentativa real de aproximação. Para Paco,
não interessam mais os carregadores, mas sim, aquele que sempre esteve
dormindo na cama ao lado. O oposto, entretanto, não acontece. Numa fúria
insana, reavaliando ao valores burgueses tradicionais, Tonho desespera-se.
A decadência de seu sistema é evidente. Não arranjou emprego, foi humilhado
apesar de querer ser amistoso, roubou, foi cúmplice de um possível assassinato
e agora era aceito como parte de uma dupla de ladrões. O único modo de
ser rearranjado em seu próprio universo de valores é acabar com quem o
seduziu, assassinando-o. Em um sentido metafórico, fica presente a completa
ausência de cumplicidade entre indivíduos de uma mesma classe. |
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| Passados mais de 30 anos da primeira adaptação cinematográfica de "Dois
Perdidos Numa Noite Suja", José Joffily dirige uma nova versão que, ao
tentar contextualizar o conflito entre Paco e Tonho, desloca o conteúdo
político-social analisado até o momento. Lançado comercialmente no ano
de 2003, com Roberto Bomtempo e Débora Fallabela no elenco, o filme inspira-se
diretamente no texto original, mas não é uma adaptação que procura sustentar
as mesmas pretensões. |
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| Utilizando o universo dramático criado por Plínio, Joffily realizou
um longa-metragem cuja proposta caminha em outra direção. As diferenças
são substanciais. Se antes o sujeito estava marginalizado em sua própria
cultura, sendo excluído da sociedade em que nasceu, agora a questão torna-se
mais explícita. Os personagens vivem em Nova Iorque, em uma comunidade
com outros valores. Mesmo que estivessem integrados ao modo de vida norte-americano,
haveria sempre um certo distanciamento, afinal, os imigrantes carregam
consciente e inconscientemente a língua e os costumes singulares de seu
país de origem. Esta explicitação, não tão evidenciada no original, também
aparece no relacionamento entre os protagonistas. A transformação de Paco
em uma garota rebelde que se traveste em homem para conseguir vender o
corpo desenvolve novos contornos na vivência deles. Se havia uma necessidade
mútua ocultada e despercebida pela maneira agressiva como se comportavam,
agora há, desde que se conhecem, uma desconfiança de que solitários de
sexo opostos, ao se encontrarem quando distanciados de casa, tendem, com
o tempo, a se relacionarem afetivamente. |
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| A tese fica comprovada durante o filme. No decorrer de uma cena, depois
que Tonho já observou Rita (nome verdadeiro da garota) diversas vezes
com uma olhar apaixonado, ele tenta efetivamente uma aproximação. Enquanto
ela se observa no espelho, começa a acariciá-la, seduzi-la. O prazer demonstrado
por ambos não deixa dúvidas: há uma necessidade mútua provocada, naquele
instante, pelo desejo sexual. |
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| A escolha de Joffily, portanto, foi destituir a história de elementos
fortemente políticos e sociais, dando-lhe uma contextualização próxima
ao afetivo amoroso. Neste caso, como o objeto em foco é outro, a análise
não deve se preocupar tanto com a possível fidelidade da adaptação de
uma história de Plínio Marcos, como o par de sapatos não estar mais no
cerne das tensões, mas sim, quinhentos dólares necessários para Tonho
retornar ao Brasil. A inspiração direta e as mudanças ocasionadas por
uma nova abordagem, todavia, merecem um exame atento cujo fim é perceber
se o filme conseguiu, de certa maneira, preencher satisfatoriamente seus
objetivos. |
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| A inspiração direta em Plínio Marcos vai além de características ficcionais
parecidas. Mais do que uma trama que não sofre alterações substanciais
em seu núcleo, com exceção da relação amorosa e da conclusão, em que ninguém
é assassinato, no "Dois Perdidos" de Joffily há a tentativa de restaurar
o mesmo conflito entre os protagonistas. Entretanto, diferente do longa-metragem
de Braz Chediak, não há uma construção satisfatória do embate. Na produção
recente, Tonho é excessivamente fraco. Embora aja de modo violento quando
nervoso, não consegue contrabalançar as provocações de Paco. Já este,
excessivamente forte, oprime continuamente o companheiro, não lhe dando
qualquer chance de expressão. Muito caricatural, tal relação sofre um
desgaste tão intenso que a dupla inversão no final falha. Quando Tonho
finalmente detém o poder e o espectador pode observar uma Rita humilhada
e enfraquecida, soa estranho, inverossímil. Se havia um desenvolvimento
gradual que sustentava esta inversão, ele desaparece aqui. |
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| A falta de preparação para o desencadeamento final, todavia, não acontece
unicamente pelo desenrolar sufocante da história. Como a força deste "Dois
Perdidos Numa Noite Suja" não está concentrada nos diálogos em justaposição
com uma estrutura teatral linear, as imagens adquirem uma presença maior
e, conseqüentemente, influenciam mais no desenlace da narrativa . Sendo
assim, ao optar por utilizar e manter, nos interiores, um ritmo nervoso,
com muitos cortes, uma câmera sempre em movimento e, principalmente, primeiros
planos que ininterruptamente salientam a agressividade dos personagens,
aumentando o fator dramático e psicológico do conflito, Joffily não apenas
deixou de introduzir momentos de suspensão, como desgastou rapidamente
um embate que deveria ser progressivamente processado. |
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| Tal fator interfere também na nova abordagem. O filme não cumpre a tendência
sentimental-afetiva que anuncia desde o início exatamente pela ausência
de uma gradual aproximação entre os companheiros que dividem a residência.
Na junção entre uma técnica e uma relação que são rapidamente desgastantes,
o momento que Tonho anuncia seu amor por Rita ou a cena em que ela, logo
depois de abandonada, sai na rua desprotegida a procura dele, tornam-se
irrisórios. A falta de sustentação, equilíbrio e ritmo enfraquece as confidências,
que são ditas sem preparação, de forma muito abrupta. |
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| É fato que, nas últimas cenas, a montagem que apresenta seqüencialmente
Rita travestida novamente em Paco e sozinha em Nova Iorque, enquanto Tonho
caminha solitário com sua mala de viagem, objetiva contrapor duas existências
que poderiam se completar mas, mesmo assim, continuarão vazias. Infelizmente,
tal simbolismo não funciona. Para o espectador, o momento da despedida,
mais do que de tristeza, aparece como alívio, como um dos únicos planos
abertos a proporcionar um repouso dos closes e do ritmo lancinante dos
cortes abruptos e da câmera em êxtase contínuo. O filme respira fundo
tarde demais. |
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