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De
volta as voltas
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Ó tu, que entras onde a dor fez morada!
Não penses que poderás depois sair tão facilmente como estás entrando!
Dante Alighieri, "A Divina Comédia"
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| Quase meia-noite. Sempre que pego esse ônibus, desço e tenho que andar
um pouco até o ponto da próxima condução para casa. Pelo caminho, penumbra
e luz da rua se intercalam. Passo em frente a um bar, com três mesas na
calçada, sete pessoas, três delas homens, vestidos a vontade, de bermuda
e camiseta, acima dos 25 anos. Conversavam e riam bobagens cotidianas,
sentados ao redor de uma mesa, sobre a qual posavam três copos e latinhas
de refrigerante. |
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| Refrigerante. Quem vai a essa hora no bar, beber refrigerante com os
amigos? Estranhei e conferi a outra mesa: quatro copos e uma, duas garrafas
de cerveja, uma delas vazia. Essa sim é uma mesa coerente para o momento
e o local, com três rapazes e... uma moça, que aparentemente não é namorada
de nenhum dos outros. Essa cena martela minha cabeça, com a estranheza
de quem acaba de ver um filme de David Linch. Ora que bobagem a minha.
E o que tem de mais nisso? Estaria eu virando um puritano ou um machista
daqueles inveterados? Apertei a passada e segui adiante. |
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| Na mesma semana, sábado à tarde, estava eu entre os estudos sistemáticos
– eles lá e eu aqui – e a janela do quarto, observando um beija-flor.
Fazia tempo que não reparava em beija-flor perto de casa, azul, parado
no ar com um bater de asas incessante. Notei também as pombas sob a beira
de uma calha, três que se juntavam a outras três e depois mais duas. Desviei
o olhar e passei a divagar em torno de um pedaço de cordão verde-e-amarelo
que está enroscado no poste de luz desde a última copa do mundo e ninguém
se preocupou em tirá-lo de lá. |
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| Percebi então que algo havia mudado. A cidade deixava de ser chapada,
de via única, tornando-se novamente uma infinidade de faces, de seres
e nuanças que envolvem a carapaça de um andarilho. |
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| De volta às voltas, me vi mais uma vez atento a cada detalhe ao meu
redor, em um sem fim de caminhos além do sempre caminho. Senti que era
a hora. Saquei agenda e lapiseira – já que o velho lápis estava longe
das mãos – e voltei. Voltei! |
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